UM POUCO MAIS SOBRE A Estilista Francesa Yiqing Yin

Em entrevista ao site ARTINFO a jovem estilista francesa fala de sua carreira meteórica no mundo da moda. 

Yiqing Yin fez sucesso rápido desde que lançou sua primeira coleção em 2010. Ela foi convidada apresentar no festival prestigioso Hyères International, ela ganhou o Grande Prêmio de Criação da Cidade de Paris e o prêmio Andam para primeiras Coleções e foi escolhida pela Vogue francesa como um dos oito estilistas para se seguir. Em janeiro de 2012, ela participou pela primeira vez como convidada do calendário oficial da alta costura em Paris. 

Yiqing Yin trabalhando

Muitos de seus modelos são escultóricos, você estudou arte?

Eu estudei cinco anos artes & técnicas na Ecole nationale des Arts Décoratifs, e fazíamos muitas coisas, de escultura   à cenografia a design  gráfico e fotografia. Estudamos o espaço, os objetos, e imagens todos juntos através de diferentes formas de expressão e eu sempre adorei o elemento escultórico da coisa. Escultura é muito importante quando você a coloca no contexto; vem com o espaço que a circundo, isso é muito importante. E para mim, vejo a moda como uma forma de esculpir num corpo vivo como base, e tecido como um meio, mas é algo que sempre está em movimento, então é movimento dentro do espaço e precisa se relacionar com seu ambiente. É uma escultura em movimento ao movimento e a marca que o corpo deixa enquanto se move, a graça, a linguagem corporal, tudo isso é parte do resultado final. De certa forma, eu tenho a ideia original, mas quem termina é na verdade a pessoa que veste a roupa.

Qual foi o ponto de partida para sua última coleção, Spring of Nüwa?

Coleções anteriores eram sobre o corpo humano e os animais. Essa coleção era mais sobre vegetais e minerais. Peguei a história dessa deusa china, que moldou o primeiro homem de barro, realmente como um pretexto para falar sobre os elementos e a ideia de natureza transformadora. O ponto de partida foram as fotografias em branco e preto de Karl Blossfeldt. Eu amo as texturas que ele cria com seu trabalho. Ele fotografou plantas e coisas vivas, mas elas parecem esculturas de pedra e o resultado é muito arquitetônico. Há um paradoxo aqui, entre matéria vegetal viva e a rigidez e a força petrificadas, arquitetônicas, do resultado. Eu gosto de contraste e contradição, entre o mole e o rígido, o vivo e o parado.

Um vestido de sua coleção S/S 2012

Você descreveu seus modelos como armaduras, uma proteção para o corpo. Mas a última coleção tinha um aspecto mais esvoaçante.

Sim. Nessa coleção, eu tentei fazer uma ode ao embaçado, ao blur, o oposto da alfaiataria. Era sobre potencializar a leveza, a transparência e a fragilidade ao máximo. Então tecidos eram muito leves, por exemplo, eu usei organza líquida, que move quase como água, era muito vaporosa em termos de sensação, mas muito bonita de se olhar com as gradações de cores celestiais de azuis ao cinza e prata, tons que também são muito minerais e refletem a luz. Para mim, a reflexão da luz nos tecidos é muito importante.

Você esboça, mas você também usa muitas amostras de tecido até construir o modelo no manequim. Isso é uma abordagem escultural novamente?

Sim. É uma abordagem muito instintiva. Eu desenho apenas uma proporção por cima para anotar a ideia, mas a maior parte do modelo eu encontro quando estou esculpindo diretamente no manequim, então o processo criativo acontece diretamente com as camadas de tecido.

Camadas são parte do seu estilo característico?

Acho que sim. Camadas são uma maneira de construir as roupas; é um método de construção muito tradicional, em oposição à padronagem plana. Faço a maioria dos meus modelos com camadas, com volume, em três dimensões. Mas eu acho que é também através da desconstrução, mudando o método tradicional que eu encontrei elementos novos e interessantes, formas e volumes. Pregas também são muito recorrentes no meu trabalho porque eu acho que é uma técnica muito interessante que tem muito potencial para se desenvolver de uma superfície plana em uma roupa multifacetada de 3 dimensões. Pregas dão dinâmica a uma superfície plana. Deformando o tecido você pode criar algo bem complexo para o olhar, que é também bem matemático de certa forma.

Na última coleção, muita atenção foi dada às costas.

As costas são muito importantes e devem ser contínuas com a frente. Eu nunca uso linhas realmente retas. Todas as minhas linhas estruturantes são na verdade curvas, e elas constroem uma silhueta gráfica que é muito redonda e contínua. O volume tem que continuar. Mulheres devem prestar mais atenção às suas costas. Há algo muito sensual e primordial nas costas, é a impressão que você deixa para trás. As vezes você pode ter uma frente simples e costas vazadas complexas ou transparentes que criam um elemento de sensualidade e erotismo como um todo.

Você também criou sua primeira estampa para esta coleção.

Eu me diverti muito fazendo. É um motivo desenhado a mão, o que quer dizer que é um desenho específico para ser colocado na parte do corpo que eu queria destacas e circular. Transparência e camadas novamente trabalhando uma em cima da outra criando uma vibração entre as camadas com trabalhos de desenhos lineares muito finos. É bem abstrato. Não é uma coisa característica da minha parte, mas funcionou com o resto da temática vegetal da coleção.

O que esta última coleção diz de você enquanto estilista?

Era mais alegre, leve, e espirituosa do que as anteriores, talvez porque é mais fácil de trazer luz, no sentido da palavra de quando você faz uma coleção de verão. Eu acho que nós mulheres nos sentimos mais relaxadas durante o verão e podemos nos expor mais ao externo, enquanto que no inverno, o ambiente mais cruel faz com que você queira se proteger mais.

Você lançou uma coleção prêt-à-porter esse ano. Como sua abordagem difere da alta-costura?

Prêt-à-porter é sobre trabalhar o produto. Começando de um ideal mas fazendo com que ele seja acessível ao consumidor. Estilismo não tem sentido se no final o ideal não é vestido por uma mulher. Não quero ser elitista. As peças de alta-costura na passarela são mais experimentais, o que me dá uma liberdade criativa sem restrições. Alta-costura é uma laboratório e desses experimentos, escolhemos as influências mais fortes e as traduzimos para prêt-à-porter.

Você pode falar alguma coisa de sua coleção de alta-costura Outono/Inverno 2003, que foi apresentada em janeiro?

Ela é construída em torno das histórias da corda, da linha, e do fio. Você vai ver uma silhueta mais magra e muito mais sexual.

Cores principais?

Bronze, azul petróleo e diferentes variações de cinza e pretos opacos.

O que te inspira no geral?

Qualquer coisa que cria emoção; pode ser de uma pessoa que eu encontro a um filme que eu vejo, ou um som, uma textura.

Melhor memória de moda?

Logo depois que terminou meu primeiro desfile, a sensação de estar ludibriada de felicidade e cansaço foi muito bacana.

Uma palavra para descrever seu estilo pessoa?

Simples. 

Você está fazendo roupas para você mesma?

Às vezes. De certa maneira cada vez mais, mas acho que para uma estilista mulher isso tem que ser construído com o tempo. A ideia é ficar cada vez mais em sintonia comigo enquanto cresço como estilista e como pessoa. Com certeza há espaço para melhoras no que faço e desenho para estar mais próxima do que sou. Quando você começa como uma estudante jovem de estilismo, você cria para um ideal, mas enquanto você cresce como designer, eu acho que você tenta cada vez mais fazê-lo para uma mulher de verdade. É um outro passo que eu acho muito interessante. Você cria uma roupa que é um objeto cotidiano para uma mulher de verdade no mundo de verdade. Uma roupa com a qual ela pode se identificar e que se torna dela.

Quem é seu estilista favorito?

Vionnet.

Tecido favorito para trabalhar?

Seda, em todas as suas formas.

Cor favorita?

Preto.

Você coleciona alguma coisa?

Não, não gosto de peso a mais.

Como você define luxo?

Não é algo que se mostra do lado de fora.

Onde você vê a alta-costura em 10 anos?

Eu acho que Paris tem que continuar a dar as boas-vindas a estilistas do mundo inteiro e abrir a alta costura para o mundo; para educar outros consumidores, em particular clientes asiáticos, do valor da alta-costura e luxo real, que é na verdade sobre excelência, qualidade, técnica e tradição.  Não deveria ser sobre marcas, mas sim sobre esses valores.

Anúncios